Conversas ao Luar (entre mim e eu mesmo num dia incerto de 2006)
- Acredita o Sr. no Destino?
- Meu rapaz… Ora no Destino… não sei, nunca me debrucei sobre o assunto… Mas pensando um pouco, acho que acredito sim.
- … Muito bem, então responda-me a isto se não for incomodo…
- De modo algum… tenho a noite toda… - diga lá!
- Porquê que fingimos? Porquê que escondemos a maior parte dos nossos pensamentos, sensações e emoções?
Porquê se finge o melhor amor do mundo, quando muitas das vezes tal não passa de uma farsa e é o medo da solidão a única coisa que nos une?
Porquê que aceitamos de ânimo leve o que nos é dado, quando a maior parte das vezes nos apetece dizer não.
Porquê que dizemos para nós “É melhor que nada” Justamente, nem é mau, nem é óptimo. Porquê que facilmente nos acomodamos a situações da vida? Porquê que facilmente suspendemos sonhos...?
Será porque levianamente dizemos: “É melhor que nada”, e mesmo que já seja algo bom, deixamos de procurar melhor…
...
A verdade é que todos nós, por breves minutos, ou segundos que sejam, temos “oscilações”. Oscilações de sentimentos, de comportamentos que não atendemos, pois poderiam mudar drasticamente as nossas vidas. E aqui está um dos pontos fundamentais deste raciocínio, que abre outra questão: Porquê que temos tanto medo da mudança? De arriscar… É certo que ela acarreta consequências, que podem não ser as desejadas. (Teremos assim tanto medo de nos expor? É o receio de um possível “sentimento de perda”, fruto de uma presumida equação, que nos torna inertes? Porquê que não conseguimos lidar com a dubiedade…? Estamos a falar da própria vida! Estaríamos habituados…não? Deveria ser fácil, mas não… Porquê complicar o que é ao mesmo tempo tão simples e tão complexo? Deveria ser fácil encontrar uma resposta, mas não o é!
Vejamos…, não se trata de uma fútil aventura, mas sim de decisões difíceis de tomar, de sentimentos difíceis de expressar. Será por isso que nos mantemos numa balança com um peso regulado? Pois vendo bem as coisas, o que temos poderá não ser o que “sonhamos”, mas também está longe de ser mau. E ao arriscarmos algo mais estaremos a pôr em xeque o que temos, que em determinados momentos nem é uma coisa, nem é outra. Aqui perguntamos: “Valerá a pena ARRISCAR?” - Eu responderia que sim… sabendo que só se vive uma vez… Que chega mais além aquele que sonha mais alto. Mas tudo isto não é ciência exacta, como sabemos… E o Sr. o que acha de tudo isto?
- Meu rapaz… tu ainda és jovem… Não é cedo para tanta dúvida? Vive a vida, desfruta-a! Vive intensamente!
- Mas é exactamente o que eu procuro! É exactamente o que eu não consigo fazer!
Somos nós capazes de amar incondicionalmente? Somos capazes de sentir o mesmo por determinada pessoa interminavelmente? …tenho essa esperança mas…
Mas por vezes corremos um olhar, um sorriso, um perfume, que não o nosso e nada fazemos, nada. Pois poderemos estar com ilusões… (quais as possibilidades de isso acontecer…) Podemos estar a “pôr em xeque o que temos”, ao revelar tais sentimentos. No entanto, ficamos convalescentes ao perceber que poderia ser esse o futuro que acabou de passar por nós. E quando isso acontece…, esse “futuro” já está bem longe de nós.
...
Tudo isto, leva-me ao Destino. Será que existe mesmo? Será que essa pessoa, essa vida que constantemente sonhamos, está reservada para cada um de nós?
Será que as nossas decisões estão preconcebidas? Não estarão todas as nossas decisões “viciadas”? Haverá livre arbítrio? Podemos escolher livremente? Meu caro senhor diga alguma coisa por favor...
- Vou-lhe ser honesto e poderás pensar que não te estou a levar a sério… Sabes meu rapaz, a verdade é que, nós podemos acreditar no que quisermos..., que cada um semeia o seu caminho, que cada um vai de encontro com as suas próprias convicções, e tudo o resto cabe a Deus ou alguém… Se é o destino que me faz levantar todos os dias e me dá força para encarar o amanhã sempre com o mesmo sorriso, eu não sei… Agora deixa-me dizer-te…
- Não espere, por favor, mas está-me a dizer… Não, não… Imagine isto: Imagine que tem uma bifurcação, direita e esquerda. Ocorre-lhe ir pela esquerda, mas o Sr. pensa “Não, vou pela direita”, pois julga que queriam que fosse pela esquerda. Depois pensa “Será que já estava determinado? Que iria pela direita?” Se isso é verdade será que somos todos controlados? Se isso também é verdade, quem nos controla?
- Meu rapaz, Destino dizem alguns… Amor outros, porventura estes mais sábios. Meu caro amigo, estou a ver o que se passa contigo… Nada tem a ver com o Destino da forma como o referes. Tu falas-me de Amor, de um amor verdadeiro, um amor verdadeiro que anseias, que te deixa num estado febril… Ai o Amor, tão belo e tão… uma luta difícil sabes…
- E então, que conselho me dá? Há forma de ganhar essa luta? Sinto-me perdido… Não sei o que fazer…
Diga-me o Sr. se já alguma vez esteve perante tal batalha? Já esteve perante dois distintos caminhos? Eu estou preso a ambos e não me consigo decidir…
- Sim, …já lá estive!
- E então?
- Pensei durante algum tempo e no momento certo me decidi. - Não foi nada fácil!
- Como?
- … Meu rapaz só tu o podes fazer… Cada um tem que encontrar o seu caminho, se é isso que procuras...
- Não me deixe assim… Diga-me lá como o fez! Conte-me a sua história!
- Bem, … Meu avô dizia: “O caminho faz-se ao caminhar”, mas sempre que dava um passo…
- Sentiu medo…? Presenciou o tremor de ter que escolher e simplesmente não poder? Imobilizou-se na inércia de só querer saber o que realmente se quer, sem saber como o fazer?
…
Mas porquê que temos sempre que optar…?
Toda a minha vida imaginei-me livre para escolher o caminho a seguir, sem qualquer duvida, sem ponderação… Mas não… Há sempre um outro, que me confunde, que me ilude, que me seduz, que me desilude…
- O que realmente queres saber? O que se passa contigo?
- Quer mesmo saber? Muito sinceramente não me vejo aqui. Cada trilho que piso, cada direcção que escolha, sinto a minha vida a correr em sentido oposto. Para mim tudo é …
- Estranho…
- Não verdadeiro. Eu próprio deixo a pouco e pouco de me sentir verdadeiro. A qualquer minuto que passa, quer no que faça, quer no que vejo, quer no que leio…; Constantemente me pergunto… Mas porquê? Porquê? Porquê que não consigo… simplesmente não consigo fazer isto sozinho…
Será que assim tem que ser? – Porquê?
- Meu rapaz... Mas porquê que estás constantemente com os porquês?
- Porque sou fraco e estou farto! E o Sr. não o conseguiu evitar!
- Pois…(sorriu moderadamente) Então fraco? Tu não és nada fraco! E Estás farto de quê?
- Sim sou fraco e estou farto! …farto das pessoas… Farto de pessoas fracas… São fracas as pessoas - fracas nas palavras e as palavras fracas demais.
- Meu rapaz… e se eu lhe contasse um segredo?
- Mais um…? Rapidamente deixaria de o ser…
Diga-me antes porquê que sofremos? É o sofrimento uma necessidade fisiológica ou é inerente ao Amor? E todos os que amam estão condenados a sofrer?
- Um dia… um dia perceberás…
- Por favor, não me venha com tretas… Delas já estou eu farto: “Um dia…” Um dia estarei morto isso já hoje sei…
Sabe, o que me irrita, neste exacto momento, neste nosso tão-chamado mundo... É ninguém ser quem afirma ser. É viverem vidas irreais porque subjectivaram um sonho. Chega de palavrinhas de auto-ajuda. Serve de Exemplo: “Eu estou bem!” Escrito milhares de vezes, até a própria pessoa acreditar no que escreve. Nada mais ilusório… E eu que não consigo deixar de Sonhar com as palavras que num dia incerto me foram ditas… - Tudo isto me enlouquece…
- Permita que lhe pergunte o seguinte meu rapaz: O que lhe faz questionar-se tanto são as pessoas ou as próprias palavras?
- São as palavras das pessoas! As palavras sem as devidas pessoas nada são. Todas sem excepção, e agora falo das pessoas, elas tentam constantemente fortalecerem-se com palavrinhas e palavreados. Palavreados eloquentes que apenas seduzem quem os profere.
- Então o que está errado?! Não é intrínseco ao Ser procurar “injectar-se de forças” (se me permite tal expressão), para fazer frente ao dia-a-dia? Não devem ser admissíveis, todos os meios lícitos?
- Respondendo à primeira pergunta, nada é errado. Tudo é subjectivo. Deixou de haver verdade. Ela própria é subjectiva, confesso. É não mais do que a Mentira. As palavras MENTEM, e ferem ferozmente…
Quanto à segunda, intrínseco do Ser, é a ambição desenfreada sem regras, sem emoções ou constrangimentos, uma espécie de canibalismo intecto-social. – Idiotas… Como somos...
- Afirma então que todos mentimos ostensivamente? E que vivemos numa falsidade efectiva?
- Pouco importa! Pouco importa o que digo. Se eu hoje digo uma coisa e amanhã outra. Pouco importa o que digo, se nem hoje sou ouvido.
- E não acha que o fazemos para tornar a nossa convivência menos cruel e limitativa a uma realidade existencialista?
- Note meu Sr., com todo o respeito, fomos nós que criamos as palavras, não o contrário. Como afirma o velho e ilustre sábio “Primeiro é-se e depois demonstra-se porque se é”. …Não com palavras, mas actos. E é nos actos que as palavras soam falsas. Uma pequena mentira ali outra acolá, suficiente para fazer dela verdade absoluta.
Como queria eu ser falso e dizer que fraco não sou! Que sou livre das palavras, mas não. Sei hoje que sou fraco e que amanhã o serei. Não pelas palavras, não pelos actos. Não pelos meus, mas pelos dos outros que me levam. Estes contaminados por palavras. Estúpidos eufemismos que escondem a genuinidade do Ser.
- Meu rapaz, é notório que estás bastante agastado…, mas neste momento este é o meu conselho:
- ...
- Entrega-te à vida, e deixa ela te levar...
Não te preocupes em saber onde e por onde
Não te preocupes com nada
Aprecia tudo
Admira tudo
Adora tudo
Tudo é para ser adorado, mesmo o que não adoras
Tudo é para ser admirado, mesmo o que não admiras
Tudo é para ser apreciado, mesmo aquilo que tu não aprecias
Tudo é para ser comtemplado!
É o Sentir
O prazer de Sentir
A satisfação por Sentir...
Essa é a beleza da vida!
"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas"
- Curioso! Simplesmente curioso! Lembro agora essas palavras meu caro senhor.
"Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações."
- Ora nem mais...(Sorrisos)